E se eu dissesse que o inventor de uma ideia ou produto disse que sua invenção ou conceito não deveria mais ser usado? Bem, esse é exatamente o caso de Frederick J. Kelly, o homem que inventou os testes padronizados. Kelly afirma: “ Estes testes são muito rudimentares para serem usados ​​e devem ser abandonados”. 

O teste de múltipla escolha foi criado para que o estado pudesse medir de forma ampla o quanto os alunos de cada distrito estava absorvendo da aprendizagem, mas infelizmente passou a ser usado de forma massiva e preguiçosa pelas escolas do mundo todo.  

É inegável a ampla adesão que o teste de múltipla escolha tem no mundo. Desde que foi criado, sua forma foi muito pouco alterada e seu objetivo continua o mesmo: padronizar, facilitar e tornar mais rápido o ato de “dar notas”, além de eliminar o “julgamento subjetivo” do professor ou da professora.

Dado que o sistema de ensino atual continua baseado em memorização, fragmentação e descontextualização do conteúdo e está completamente desconectado da realidade dos estudantes, ignorando seus interesses e habilidades, é compreensível o porquê esse teste continua sendo uma das principais formas de avaliação nos dias de hoje.

Uma avaliação rasa, que reduz a criatividade, a imaginação, a visão crítica, a capacidade de argumentação, o envolvimento e toda a potencialidade do ser humano a meras respostas certas ou erradas. O próprio criador do teste afirmou que “esses testes são muito grosseiros para serem usados e devem ser abandonados”.

Qual é a relevância do teste de múltipla escolha para a aprendizagem do estudante? O que esses testes estão, de fato, medindo e selecionando? O que é avaliação e qual é seu papel na aprendizagem? O que é aprendizagem? É possível medir a aprendizagem? O que é ensinar? Se o aprendizado é individual e cada indivíduo é único, qual é o valor da padronização? A reflexão e a tomada de consciência são os primeiros passos para a mudança.

O texto abaixo é uma tradução livre de um trecho do livro ‘Now You See It’ de Cathy N. Davidson e conta a história da criação do teste de múltipla escolha.

Há um “pai” para o teste de múltipla escolha, alguém que realmente sentou e escreveu sobre ele. Seu nome é Frederick J. Kelly e ele criou esse teste em 1914.

É bem chocante notar que, se alguém lhe der, hoje, o primeiro teste de múltipla escolha da história, ele parecerá muito familiar, pelo menos no formato. O teste mudou tão pouco nas últimas oito ou nove décadas que você não perceberia quão antigo ele é até ver que seu conteúdo não trata de praticamente nada sobre o mundo desde a invenção do rádio.

Nascido em 1880 na pequena cidade agrícola de Wymore, Nebraska, Kelly viveu até 1959. Educador ao longo da vida, ele viu, até a hora da sua morte, o teste de múltipla escolha ser adaptado para todos os usos imagináveis, e, embora ainda não tivesse sido promovido à política nacional de educação, era a única métrica utilizada para avaliar o que as crianças estavam aprendendo na escola, quão bem os professores estavam ensinando e se as escolas estavam ou não falhando.

Kelly começou a sua carreira na Emporia State University (antigo Kansas State Teachers’ College). Em 1914, terminou sua tese de doutorado intitulado Teachers’ Marks, Their Variability and Standardization (As notas dos professores, sua variabilidade e padronização). Sua tese discutiu principalmente dois pontos. Primeiro, ele estava preocupado com o grau significativo de julgamento subjetivo dos professores na forma como davam as notas. Segundo, ele achava que as notas tomavam muito tempo do professor. Para a resolução do primeiro ponto — “variabilidade” — ele defendeu a padronização, que também resolveria o segundo ponto, criando um método rápido e eficiente de dar notas.

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Inspirado pelo “movimento do teste mental”, ou testes de QI, Kelly desenvolveu o que chamou de Teste de Leitura Silenciosa de Kansas. Naquela época, ele estava a caminho de se tornar o diretor da Training School no State Normal School em Emporia, Kansas, e, de lá, ele se tornaria o decano da educação na Universidade de Kansas. “Sempre houve uma demanda por parte dos professores para saber o quão efetivamente estavam desenvolvendo em seus alunos a habilidade de adquirir significado a partir de uma página impressa”, escreveu Kelly. “Nada é mais fundamentalmente importante no nosso trabalho escolar do que o desenvolvimento desta habilidade.”

Para Kelly, o “ensino efetivo” significava resultados uniformes.

Nesse sentido, ele era uma criatura de sua era, conquistando um produto confiável, uniforme e facilmente replicável — o modelo de confiabilidade e padronização — acima da engenhosidade, criatividade, individualidade, idiossincrasia, julgamento e variabilidade.

Assim nasceu o teste de leitura cronometrada. O mundo moderno de 1914 precisava de pessoas que pudessem encontrar a resposta certa, na quantidade de tempo certa, em um teste que pudesse ser avaliado rapidamente e com precisão por qualquer pessoa.

O Teste de Leitura Silenciosa de Kansas foi para um educador o que o Modelo T de produção de automóveis foi para a indústria automobilística na época. Foi o teste perfeito para a era da máquina, o ideal fordista de “qualquer cor que você quiser, desde que seja preto”.

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Para tornar os testes objetivos na mensuração e eficientes na administração, Kelly insistiu que as questões deveriam ser elaboradas de forma que não houvesse ambiguidade. Existiriam respostas inteiramente corretas ou totalmente erradas, sem interpretações variáveis. O formato seria familiar para qualquer leitor:

“Abaixo estão os nomes de quatro animais. Desenhe uma linha em torno do nome de cada animal que seja útil na fazenda: vaca – tigre – rato – lobo”.

As instruções continuam:

“O exercício nos diz para desenhar uma linha em torno da palavra vaca. Nenhuma outra resposta estará correta. Mesmo que uma linha seja desenhada sob a palavra vaca, o exercício estará errado e nada contará… Pare quando o tempo terminar. Não vire as folhas até que seja dito, para que todos possam começar ao mesmo tempo”.

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Trecho do artigo de Frederick J. Kelly da edição de fevereiro de 1916 do The Journal of Educational Psychology

Aqui estão as raízes da reforma da educação baseada em padrões que temos hoje, preparando solidamente a juventude para a era da máquina.

Ninguém poderia negar a eficiência do teste, e a eficiência era importante nas primeiras décadas do século XX quando as escolas públicas explodiram demograficamente, aumentando de quinhentos em 1880 para dez mil em 1910, e quando o número de alunos do ensino secundário aumentou mais de dez vezes.

Mesmo assim, muitos educadores alegaram que o teste de Kelly estava tão concentrado no pensamento de ordem inferior que deixava totalmente de lado as outras formas de pensamento complexo, racional e lógico. Eles afirmaram que os exames, até então uma antiga forma de prova, eram uma forma elevada de conhecimento, enquanto os testes de múltipla escolha tinham uma baixa qualidade. Os exames permitiam a criatividade, o florescimento da retórica e outros exemplos de estilo individual, enquanto o Teste de Leitura Silenciosa insistia na uniformidade cronometrada, no maior número de respostas corretas dentro de um tempo específico. Os exames enfatizavam o pensamento coerente, enquanto o Teste de Leitura Silenciosa exigia respostas certas e conhecimento fragmentado. Os exames apreciavam a individualidade e até mesmo a idiossincrasia, enquanto as palavras-chave do Teste de Leitura Silenciosa eram: uniformidade e impessoalidade.

O teste de múltipla escolha evitava, porém, o julgamento. Ele era chamado de objetivo não porque era uma medida precisa do que a criança sabia, mas porque não havia nenhum elemento subjetivo na hora de dar as notas. Havia um gabarito que dizia a cada professor o que estava certo e o que estava errado. O professor ou seu auxiliar apenas registrava as pontuações. Seu julgamento não era mais um fator que determinava o quanto uma criança sabia ou não. (…)

Os valores que contaram e prevaleceram para o Teste de Leitura Silenciosa foram: eficiência, quantificação, objetividade, factualidade e, acima de tudo, a crença de que o teste era “científico”. Em 1926, um tipo parecido com o teste de Kelly foi adotado pelo College Entrance Examination Board (conselho responsável pelo exame de admissão na faculdade*) como base para o Teste de Aptidão Escolar (SAT).

Uma vez que as massas de alunos poderiam fazer o mesmo teste, todos seriam classificados da mesma forma e transformados em números para produzir resultados comparativos, eles estavam prontos para se tornarem mais um produto da era da máquina: estatísticas, com diferentes estatísticos surgindo com diferentes teorias psicométricas sobre o melhor número de itens, o melhor número de perguntas e assim por diante.

O Teste de Leitura Silenciosa de Kansas fazia diferentes tipos de perguntas, dependendo do aluno ao qual estava destinado: do terceiro ou do décimo ano. A razão para isso foi que Kelly projetou o teste para ser analisado não somente no que diz respeito à realização individual, como uma ferramenta de avaliação que ajudaria um professor e um pai a determinar o desempenho de uma criança, mas também como uma ferramenta que permitiria que os resultados fossem comparados de uma série à outra em uma escola, entre diferentes séries, e também entre escolas, distritos, cidades, e divisíveis da forma que quisesse de acordo com as categorias geográficas. Se isso lhe parece familiar, é porque é praticamente idêntico à nossa atual política educacional.

Esta história tem um fechamento agridoce: nos escritos posteriores de Kelly, está claro que ele mudou de ideia sobre a sabedoria desses testes. Ele não escreveu muito, mas o que escreveu não menciona o Teste de Leitura Silenciosa de Kansas. Longe de consagrar esta conquista para seu histórico de vida, seus registros posteriores passam por ela em silêncio. Parece que sua filosofia educacional tomou um caminho completamente diferente.

Em 1928, quando ascendeu à presidência da Universidade de Idaho, Kelly já havia mudado seu pensamento sobre o curso da educação americana. Em seu discurso presidencial inaugural, “The University in Prospect”, Kelly argumentou contra a tendência predominante da educação pós Primeira Guerra Mundial na América que caminhava em direção a um ideal mais especializado e padronizado. Sua reforma mais importante na Universidade de Idaho durante sua presidência foi ir rigorosamente contra a corrente do movimento educacional moderno e criar um currículo unificado de artes liberais para o primeiro e segundo anos de estudo. Seu método enfatizava o pensamento geral e crítico.

“As práticas da faculdade têm transferido a responsabilidade do aluno para o professor, a ênfase do aprendizado para o ensino, com o resultado de que o desenvolvimento de forças fundamentais de propósito ou de hábitos de estudo duradouros seja raro”, disse o presidente Kelly anunciando seu próprio modelo para a reforma educacional.

Ele criticou a especialização em um estágio muito precoce no desenvolvimento educacional de um aluno e defendeu “fases mais fundamentais na faculdade”. Ele insistiu: “A faculdade é um lugar para aprender a educar-se em vez de um lugar para ser educado”.

Sua mensagem foi contrária à modernização, especialização e padronização da educação que, infelizmente, ele próprio ajudou a iniciar.

O corpo docente da Universidade de Idaho protestou contra as reformas do presidente Kelly e, em 1930, ele foi convidado a demitir-se de sua posição. No entanto, seu teste continuou a ser utilizado e, como já vimos, persiste até hoje em exames de final de ano que medem o sucesso ou o fracasso de cada criança na escola pública na América, de cada professor no sistema escolar público e de todas as escolas públicas da América.

Mais uma vez, as raízes da filosofia educacional do século XXI voltam para a era da máquina e seu modelo de eficiência linear, especializada, de linha de montagem, todos na mesma página, todos esforçando-se pela mesma resposta a uma mesma pergunta. Se o teste de múltipla escolha é o Modelo T de avaliação do conhecimento, nós precisamos questionar: Qual é o propósito de um Modelo T na era da Internet?

(Cathy N. Davidson é co-fundadora da HASTAC e autora de ‘The Future of Thinking: Learning Institutions for a Digital Age’ e ‘Now You See It: How the Brain Science of Attention Will Transform the Way We Live, Work, and Learn’. Mais informações em: www.nowyouseeit.net (Fonte))

*Este texto foi escrito por Bia Burin para a plataforma colaborativa de escritores Medium


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Juliana Palma

Pedagoga e Ma em Educação. Especializada em Psicopedagogia, Neuropsicopedagogia, Análise do Comportamento, Terapia Aba e Altas Habilidades. Acadêmica do curso de Nutrição na Universidade Estácio de Sá. "Descobri o TDAH aos 33 anos e hoje me dedico a ajudar outros adultos na avaliação e na intervenção do transtorno." Atendo de forma online, crianças, adolescentes, adultos e idosos do mundo todo, que buscam superar as dificuldades de aprendizagem nos estudos ou em sua carreira.

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